Era um dia de Primavera. Sentia-se no ar que a vida começava a desabrochar. As ervas brotavam nos campos. As flores espreguiçavam as suas pétalas. As abelhas preparavam os seus exércitos de operárias para a industrialização do seu mel. Nos ninhos, ouvia-se um doce chilrear saídos de uns biquitos que começavam inquietamente a despontar para a vida e que aguardavam com ansiedade os pedacitos de alimento que os seus progenitores lhes haveriam de trazer. Tudo era paz e ânsia de viver.
Costumavam chamar-lhe infância.
Os dias passavam um após o outro e cada um era diferente do anterior. Novos encontros, novas vivências, novas expectativas, algumas alegrias, algumas tristezas. Era a paz de um lar garantido.
Mas, um dia, inesperadamente, desabou uma tempestade sobre aqueles campos, encheram-se de água, o vendaval varrera as lindas flores e quebrara muitos ramos daquelas árvores cujos troncos se previa que um dia ajudariam a construir lindos móveis de um lar de paixão.
Tudo estava arrasado e demolido. O desalento instalou-se e o tempo perdido pesava nas suas vidas.
Mas, o sol regressou e trouxe esperança, surgindo com tanto calor que intensamente se vivia aquele amor. Mutuamente acompanhavam-se e viviam momentos de grande ternura. Tudo era doce e quente.
Os frutos amadureceram e, muitos, participaram em grandes repastos satisfazendo os apetites ávidos de algumas bocas, outros, caíram no chão com o seu já maduro peso, acabando debicados por aves e vermes.
E o Outono chegou, as árvores decoraram-se de quentes cores de castanho, amarelo e vermelho. O frio e o vento chegaram e, as folhas caíram cobrindo todo o solo como se ali existisse um extenso tapete.
As chuvas alagaram as fortes e profundas raízes daquelas árvores. O frio transformou-se em neve. Apenas o espectro dos troncos das árvores e dos seus galhos deixavam aperceber as suas formas, Tudo era frio e vazio. A solidão estava.
Que mais poderia esperar e desejar? O frio regelava-lhe os ossos, apenas cobertos por uma escassa camada de pele já enrugada e seca. Os olhos encovados olhavam apenas as recordações de um passado já muito longínquo. Já quase não sentia o sofrimento do presente. As mãos, esqueléticas e rugosas, pendiam cruzadas no seu regaço.
O silêncio era de morte. Subitamente, a vida sorriu-lhe, sussurrando um nome que mal se ouviu, ainda lhe pareceu ver o clarão de uma tempestade e, logo, tudo escureceu.
29.03.98
MAM
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