Era Sábado, Agosto de 97, e nas várias vezes que tive que sair à rua nesse dia, apercebi-me que uma gatinha de pelo atigrado muito pequenina procurava companhia junto às pessoas e crianças que conversavam e brincavam numa praceta, perto de minha casa. Reparei até que, num espaço de jardim ali existente, e onde a minha neta brincava com algumas crianças, a gatita tentava entrar na brincadeira escondendo-se atrás dos arbustos. Achei engraçada a fácil comunicabilidade que aquele ser tão pequenino tinha a introduzir-se nas brincadeiras das crianças e na aproximação que fazia às pessoas que estavam por perto. Pensei que a gatita pertenceria talvez a algum morador de um rés-do-chão local.
Por mais uma ou duas vezes que por ali passei lá vi a gatita, saltitante de um lado para o outro. Quando à noite regressava a casa, mais uma vez vi a bichana, desta vez rondando a porta do prédio onde moro. Provavelmente o que a levara ali, seria um grupo de rapazes que ali se costumam juntar, ao fim do dia, para confraternizar antes do recolher a casa para dormir. Curiosa, e porque já era de noite, perguntei se sabiam a quem pertencia a gatita. Não sabiam, apenas já tinham reparado que ela os acompanhava de perto, escondida debaixo de algum carro.
Então ocorreu-me que estaria abandonada e obviamente o que que ela procurava era alimento, carinho e protecção. Era mais um dos muitos animais que alguns adultos resolvem abandonar, talvez para poderem ir de férias descansados.
Não resisti, aproximei-me e peguei-lhe. Ela não ofereceu qualquer resistência, parecia até que estava à espera desse gesto.
Era uma ternura. Não consegui voltar a colocá-la naquele chão tão frio e desprotegido. Levei-a comigo.
Apesar de sempre ter muito carinho por animais, nunca tivera tido possibilidade de os ter em casa, até porque sou asmática e essa á uma situação proibida. Mas eu sentia que aquele animal tão pequenino não estava à minha porta, por acaso. A minha casa e o meu lar esperavam-no.
Quando cheguei a casa, é que me apercebi que não tinha para lhe dar condições de habitabilidade. Não sabia que idade tinha, o que comia, o que precisava. Era tarde, não podia ir comprar nada que nos ajudasse. Para já, o que tinha para lhe dar era muito carinho, uma cama adaptada num cestinho de verga, onde acomodei uma camisola de lã, já usada e quentinha, e uma tijelinha com leite. Era tudo o que, de momento, tinha para oferecer. Apesar disso, ela nada comeu e, apenas dormiu repousadamente.
A noite pareceu-me longa e sempre com a preocupação de assistir à gatita. Pela manhã já ela saltitava e me perseguia onde quer que eu fosse. E, mal chegou a hora de abertura do supermercado, lá fui eu pesquisar o que havia comercializado para felinos: latas de comida, biscoitos, leite, casa de banho, areia, um ou dois brinquedos, uma coleira com guizinho, uma escova para pentear e shampoo.
Foi a partir destas circunstâncias que, pela primeira vez na minha vida, tive um animal doméstico, mesmo correndo o perigo de poder vir a ter algumas crises de asma acrescidas. O que, no princípio até aconteceu.
Mas, uma parte da minha vida mudou. Eu atravessava uma fase não muito boa da minha vida, tivera um esgotamento e estava ainda a restabelecer-me dessa depressão, sentia-me só, infeliz, os meus dias simplesmente “passavam”. O meu filho casara, a neta, que adoro, tinha nessa altura dois anitos, mas a minha casa não era um lar.
Afinal aquele animal precisava um pouco daquilo que eu precisava dar e receber: carinho, atenção, uma partilha mútua de sentimentos, sim porque eu acredito no sentimento dos animais. Sentia a responsabilidade de um ser pequenino e inofensivo, que me esperava quando eu chegava do emprego. Estava nas suas sete quintas, comia, dormia e brincava. Ensinei-lhe onde fazer as suas necessidades fisiológicas, mostrando-lhe a sua casa de banho e “cavando” em conjunto com ela na areia. O instinto e a higiene dos gatos é perfeita. Era sempre ali que ela ía quando precisava. Quando estava satisfeita, ficava deitada muito refasteladamente, como se nada mais existisse. Foi assim que lhe pus o nome de PACHA.
Logo que me foi possível fui com a gata ao veterinário. Segundo ele, a gatita teria uns três meses, teria nascido em Maio de 1997. Levou as vacinas, mas quando ele já estava em idade de ter o cio e poder acasalar, como não contactava com outros animais, nunca tratei convenientemente da devida precaução.
E lá foi crescendo, apesar de ser uma óptima companheira, mantinha uma característica muito acentuada: era demasiado felina. À excepção dos períodos em que estava com cio, não se aproximava nem permitia aproximação das pessoas que não via habitualmente. Eu, era a única pessoa que lhe pegava e a quem ela procurava voluntáriamente, mesmo assim tinha aquela forte personalidade forte dos gatos “eu é que comando os meus instintos”, “amo, quero ser amada, mas sou independente”.
Quer por isso quer porque brincava muito com ela, as minhas mãos e pernas alternavam com arranhões maiores e mais pequenos. Brincávamos às escondidas, jogávamos com uma bolinha pequenina. Houve um período em que eu fiquei doente e na cama, eu mandava a bola para o corredor, ela tentava defendê-la e quando não a apanhava no ar ía buscá-la para cima da cama, outras vezes brincávamos em cima da cama, ela empurrava a bola com a pata na minha direcção e eu retribuía. Formávamos uma equipa perfeita.
Quando eu ía de férias para fora de Lisboa, a Pacha tinha duas alternativas: se fosse possível ía comigo, caso contrário ficava na Lapa em casa da tia Ofélia.
A tia Ofélia é uma amiga minha, já de há muitos anos, e que adora gatos mas não faz parte dos seus planos adoptá-los. As visitas da Pachá lá a casa, não passam de quebras de rotina. Mas eu sei que, apesar de a Pacha estranhar as primeiras horas, adapta-se muito bem ao convívio com a “tia”. E, quando chega o dia de ir buscá-la, acontece sempre estar zangada comigo. Confesso que até hoje ainda não percebi se é por se sentir demasiado bem ali, ou por se sentir traída pelo meu abandono.
Algumas vezes em que partilhámos férias em Sesimbra, na casa de uma prima minha, a Pachá andava felicíssima. A casa tem um quintal e ela adora deitar-se na terra, à sombra dos arbustos. Algumas vezes, aconteceu trazer-me, ainda viva, uma coitada duma sardanisca que apanhara no quintal. A bicha tentava a todo o custo escapar-se-lhe mas sempre que a Pachá a colocava no chão, metia-lhe imediatamente uma pata em cima como se estivesse a marcar posse e olhava para mim como se me quisesse transmitir o orgulho que tinha por ter conseguido realizar tal façanha.
E os primeiros dois anos comigo foram-se passando assim. Partilhávamos alegrias e tristezas.
Houve também umas férias em que eu e a Pachá fomos para a Quinta de um primo meu. Quando chegámos, de carro, ela fez logo uma pose para a fotografia.
Foi a primeira vez que ela viu outros gatos. Mas eu creio que, à data, ela nem se apercebeu muito bem se haveria muito em comum entre eles.
A Pachá sentia-se tão importante!
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